Tradução: Osu, dizer ou não dizer? Não é uma questão.

A “Sociedade da Virtude Marcial do Grande Japão” (Dai Nippon Butokukai) foi estabelecida em 1895. Esse foi o ano da vitória do Japão contra a China, pondo fim a milênios de hegemonia cultural e militar do “Reino do Meio”. O propósito do Botokukai era promover o bujutsu japonês e galvaniza-lo com o “espirito marcial” do imperador Kammu (que reinou de 781 – 806) em uma ideologia do espirito japonês (wakon 和魂), mais tarde propagandeado pelos nacionalistas japoneses como “o bravo, destemido e indomável espirito do povo japonês” e como uma das doutrinas chaves do militarismo japonês. A construção do Salão da Virtude Marcial (Butokuden) foi completada em 1899, próximo do templo de Heian em Kyōto e “franquias” do Butokukai foram estabelecidas por todo o país. Todo ano em Março o Butokukai sediava o Festival da Virtude Marcial (Butokusai), no qual o Karate de Okinawa fez sua primeira aparição no Japão.

Em 1905 o Butokukai inaugurou um instituto de treino privado em Sakyō, um distrito de Kyōto. Local que se tornou conhecido como Dai Nippon Butokukai Budō Senmon Gakkō, “A escola especializada em Budō da Sociedade da Virtude Marcial do Grande Japão”. Construída e gerenciada pelo Butokukai, a escola servia ao treinamento de instrutores de Bujutsu – em especial kendō e jūdō – que eram ativos na educação escolar regular. O propósito dessa instituição era o mesmo do Butokukai, ou seja, a prática de bujutsu e cultivar o espirito samurai. O principal foco da educação dos instrutores de bujutsu do ensino médio era o estudo da língua japonesa e dos textos clássicos chineses (literatura chinesa clássica?). Isso era considerado necessário para garantir que os estudantes que praticavam bujutsu também eram capazes de compreender e estuda-lo teoricamente. O Senmon Gakkō era considerado uma das melhores instituições para o treino de instrutores de artes marciais do país. A admissão era concedida sem exceção apenas ao gênero masculino. Uma graduação mínima em budō também era necessária. Em caso de falha em atingir essa graduação, o diploma universitário era negado.

Em kendō os estudantes do primeiro ano eram permitidos apenas a praticar kirikaeshi (golpes diagonais na cabeça alternando entre esquerda e direita). No segundo ano eles eram permitidos praticar apenas kirikaeshi kakarigeiko (feroz repetição das técnicas nas cordas). Jigeiko (luta livre, sem placar) era apenas permitida aos terceiro e quarto anos. Básico forte e espirito eram enfatizados. A técnicas incluíam até grappling e brigas (brawl), além de outras técnicas desconhecidas do kendō moderno. O treino era feroz, e fatalidades ocorreram.

Uma vez por mês uma “Reunião de Avaliação” acontecia, sediada pelos estudantes do quarto ano. As turmas do terceiro ano abaixo tinham de ouvir os “sermões” e extorsões por cerca de duas horas ajoelhados em seiza. Em caso de fracasso no cotidiano ou em outras situações, como falhar em mostrar cortesia ou submissividade satisfatória, eles eram castigados fisicamente. Um pronunciado relacionamento de sempaikohai, junto de suas implicações hierárquicas eram assuntos sérios na tradição da escola. Os graduados da escola recebiam uma licença como professores de ensino médio sem terem de completar o treino de professores requerido ou os exames necessários.

De 1920 a 1930 o budō testemunhou um crescimento rápido, entretanto, apenas como parte do esqueleto do militarismo japonês. Enquanto militarismo, colonialismo e imperialismo eram claramente visíveis por décadas, as guerras escalaram do Incidente da Manchúria (1931) para a segundo Guerra Sino-Japonesa (1937 – 1945) e a Guerra do Pacífico (1941 – 1945), como partes da Segunda Guerra Mundial.

O Budō e o Butokukai, como as mais prestigiadas e influentes instituições se tornaram extremamente associadas ao ultranacionalismo e um forte espirito Imperialista. As artes marciais japonesas cresceram durante esse tempo primariamente porque eram uma engrenagem na máquina ideológica da mobilização nacional.

Com a derrota do Japão em 1945, o Comando Geral do Comandante Supremo das Forças Aliadas dissolveu o Dai Nippon Butokukai e baniu o ensinamento do budō em escolas e universidades. O Senmon Gakkō foi renomeado “Escola Especializada de Kyōto – Departamento de Humanidades e Literatura (!!!), mas fechou seus portões após a última cerimónia de graduação em Janeiro de 1947.

Foi no Senmon Gakkō que a saudação “osu!” nasceu. É o resíduo bruto de uma linguagem masculina obsoleta, beirando o obsceno, e a expressão ideológica de um budō extremamente relacionado ao ultranacionalismo, militarismo e megalomania imperial.

Dizer “Osu”, ou não dizer “Osu”: para mim não é nem uma pergunta.

 

 

Por Adreas Quast.

Publicado originalmente em: http://ryukyu-bugei.com/?p=5342

Tradução por Lucas Cardoso

 

 

 

 

 

 

 

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